O fim do som

14 outubro 2010

Ruídos.   A rádio mal sintonizada, o barulho do motor, o ranger dos bancos velhos e mal regulados. Uma conversa quase inaudível de duas senhoras já de certa idade. Por fim, as janelas que já não fecham mais.

Aos poucos tudo isso vai se transformando, se juntando e formando uma espécie assustadora de coisa nenhuma, que amedronta, que faz o coração bater mais rápido e traz à cabeça pensamentos inquietantes. A medida que estes pensamentos aparecem e se encadeiam fica difícil perceber a sonoridade das coisas de fora. Cada vez mais o som externo é absorvido e transforma-se em motivação.

Um barulho alto, cheiro de pólvora no ar, gritos de pessoas. E ele, definitivamente, não ouvirá mais nada.


Por aí, por aí…

4 julho 2008

Guarda-chuvas dançam alucinadamente em uma quarta-feira cinza de inverno. Caminho sobre eles da mesma forma que caminho sobre os telhados da cidade.
Piso com pés (in)seguros esse terreno escorregadio. Alterno entre duas sensações:
Insegurança – quero sair daqui do alto, posso cair a qualquer momento;
Segurança – mesmo que seja escorregadio eu posso me equilibrar, tenho capacidade para isso.
Viajo a dois lugares. Sou Bartleby e o velho Santiago, “preferiria não” porém quando durmo “sonho com leões”.
As vezes tenho medo de prosseguir, mas continuo, afinal, prefiro Cuba a Wall Strett ou Wall Street a Cuba?
Sou outro a cada dia. Penso, crio. Não crio, não penso. Recrio. Refaço. Me reformulo. Melhoro, pioro. Nunca sou o mesmo, nunca vejo o mesmo. Não quero ver sempre a mesma coisa.
Quero caminhar em telhados novos, quem sabe nos “Telhados de Paris”.?

***

Um dia de chuva, uma idéia, uma vontade e um teclado convertido em caneta…


Yo no sé de dónde soy, mi casa está en la frontera…

27 junho 2008

Frontera – Jorge Drexler

Yo no sé de dónde soy,
mi casa está en la frontera

Y las fronteras se mueven,
como las banderas.

Mi patria es un rinconcito,
el canto de una cigarra.

Los dos primeros acordes
que yo supe en la guitarra

Soy hijo de un forastero
y de una estrella del alba,
y si hay amor, me dijeron,
y si hay amor, me dijeron,
toda distancia se salva.

No tengo muchas verdades,
prefiero no dar consejos.

Cada cual por su camino,
igual va a aprender de viejo.

Que el mundo está como está
por causa de las certezas

La guerra y la vanidad
comen en la misma mesa

Soy hijo de un desterrado
y de una flor de la tierra,
y de chico me enseñaron
las pocas cosas que sé
del amor y de la guerra.


Sono

27 junho 2008

Velo seu sono com um grande cuidado. Seu corpo está ali, deitado em minha cama, as costas desnudas. Sinto meu coração saltar no peito. Não resisto, acaricio suas costas com cuidado, não quero acordá-la. Lá fora está frio, mas o calor dentro do quarto torna tudo agradável.

Mal a conheço, mas ela está aqui. O que faz? Tenho somente uma vaga idéia. O seu nome? Não sei se começa com ‘a’, ‘b’, ‘c’ ou com qualquer letra do alfabeto. Pouco importa, pois ela está dormindo e isso me basta.

Não me canso de olhar seu corpo, sentir seu cheiro, ouvir sua respiração tão suave. Tão suave que me faz jurar que, por vezes, não está respirando. Vejo as horas passarem rápido, uma, duas da manhã. O tempo voa, queria que esse momento durasse pra sempre, vê-la dormir já me satisfaz, poderia ficar aqui mais por dias, quem sabe anos, não quero dormir, não posso, dormir seria o mesmo que perde-la…


Será que chega as oito?

6 junho 2008

Será que chega as oito?

Pode ser, ou será que é as nove?

Aí, eu não lembro que horas ela chegou da última vez.

Mas deixa de ser bobo, vai lá nas informações e pergunta.

***

Que ansiedade, depois de um mês finalmente vou poder revê-la.

Esse tempo que parece não passar, ainda faltam quinze minutos para as oito.

Estou explodindo de felicidade, nada tão bom como reencontrar quem a gente ama.

Vou acender um cigarro, quem sabe me acalmo.

***

Vou lá sim, vou agora. - Hei, com licença, que horas chega o ônibus que vem de Porto Alegre?

Droga, ainda estou na mesma, chega um as oito e outro as nove, isso não me ajuda em nada.

O que faço, o que faço? Tenta se acalmar, não precisa tanta ansiedade.

- Amigo, você me consegue um cigarro?

***

- Aqui.

***

- Muito obrigado

***

Um mês, parece tão pouco para a maioria das pessoas, mas pra mim não, cada dia longe parece dez anos.

Mas agora ta na hora, ta chegando o ônibus. Ali vem ele, box vinte e um, vou lá.

***

- Muito obrigado.

***

Chegou o das oito, será que ela vem nesse?

Vou correndo lá ver, vai encostar no vinte e um, isso, ta chegando no vinte e um.

***

- Oi meu amor, que ansiedade, não via a hora desse ônibus chegar, não agüentava mais a saudade.

- Mas pelo menos agora vamos poder ficar um bom tempo juntos. Quinze dias, pena que depois volta tudo a ser como agora, mas não vou pensar nisso.

***

Não foi nesse, ela deve chegar no das nove. Que angustia, mais uma hora esperando. Não queria nunca mais precisar esperar por ela, queria poder estar sempre junto.

***

- Ta vendo esse cara ali amor? Pois é, faz três anos que ele vem todo dia aqui na rodoviária esperar a namorada dele. Dizem que ele está louco, que a paixão dele morava em Porto Alegre e sempre vinha visitar, mas um dia ela não veio, sumiu e nunca mais deu notícias, e desde aquele dia ele vem aqui e fica esperando ela chegar.


Em suma

14 maio 2008

Dejetos, despejos, depósito.

Espaço sem intenções literárias, educativas, culturais, de protesto, humorísticas e sociais. Um lugar perdido, esperando para ser infectado, estragado, arrumado e acima de tudo, utilizado.

Folhas em branco esperando algum rabisco desorganizado ou organizado, de acordo com a vontade do momento.

Preparado para segurar o doce vômito das palavras, filtrar sonhos ou criar novos.

Uma finalidade? Quem sabe..


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